ENTRE DIRETRIZES E REALIDADE: LIMITAÇÕES NA IMPLEMENTAÇÃO DA POLÍTICA NACIONAL DE SAÚDE BUCAL INDÍGENA NO ALTO RIO NEGRO
DOI:
https://doi.org/10.36557/2674-8169.2026v8n4p666-680Palavras-chave:
saúde indígena; saúde bucal; políticas públicas; AmazôniaResumo
Este artigo analisa criticamente as limitações na implementação da Política Nacional de Saúde Bucal Indígena no território do Alto Rio Negro, com ênfase no descompasso entre as diretrizes normativas e sua efetivação no cotidiano dos serviços de saúde. Parte-se do pressuposto de que a efetividade das políticas públicas em contextos amazônicos não pode ser compreendida apenas por indicadores de cobertura assistencial, sendo necessário incorporar dimensões estruturais, territoriais, culturais e institucionais que condicionam sua operacionalização. A pesquisa adota abordagem qualitativa, de natureza teórico-analítica, fundamentada na revisão crítica da literatura recente e na análise de documentos institucionais, com o objetivo de identificar os principais fatores que explicam o gap entre planejamento e execução da política. Os resultados evidenciam que, embora a política apresente diretrizes consistentes no plano normativo, sua implementação enfrenta obstáculos significativos relacionados à logística territorial, à insuficiência de financiamento, à rotatividade de profissionais de saúde e à fragilidade da governança local. Observa-se que a organização dos serviços de saúde bucal ainda reproduz um modelo biomédico centralizado, pouco adaptado às especificidades socioculturais das populações indígenas, o que compromete a continuidade do cuidado e a resolutividade das ações. Além disso, a ausência de estratégias interculturais efetivas limita a adesão das comunidades às práticas de promoção e prevenção em saúde bucal, reforçando a natureza episódica das intervenções. A análise também revela que a fragmentação das redes de atenção e a baixa capacidade de articulação entre diferentes níveis de gestão ampliam a distância entre o que é previsto nas diretrizes e o que é efetivamente realizado no território. Conclui-se que o gap entre política e prática não se restringe a falhas operacionais, mas expressa limitações estruturais do modelo de atenção à saúde, exigindo uma reconfiguração baseada na territorialização, na interculturalidade e no fortalecimento da capacidade institucional do Estado.
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