MECANISMO DE REMISSÃO DO DIABETES MELLITUS TIPO 2 PELA CIRURGIA BARIÁTRICA
DOI:
https://doi.org/10.36557/2674-8169.2026v8n10p1758-1777Palavras-chave:
diabetes, peso, endocrinologia, cirurgia bariatricaResumo
O diabetes mellitus tipo 2 (DM2) constitui uma doença metabólica crônica caracterizada principalmente pela resistência à insulina e pela deterioração progressiva da função das células β pancreáticas. Sua ocorrência apresenta forte associação com a obesidade, especialmente com o acúmulo de gordura visceral e ectópica, que contribui para alterações na sinalização da insulina, inflamação metabólica e distúrbios na homeostase da glicose. Embora o tratamento clínico baseado em mudanças no estilo de vida e terapias farmacológicas seja fundamental para o controle da doença, uma parcela dos pacientes permanece com controle metabólico inadequado, mesmo diante do avanço das opções terapêuticas. Nesse contexto, a cirurgia metabólica e bariátrica passou a ocupar papel relevante no tratamento da obesidade e de suas complicações, particularmente do DM2.
Os efeitos da cirurgia bariátrica sobre o diabetes não podem ser explicados exclusivamente pela perda de peso. Embora a redução da adiposidade desempenhe papel importante na melhora da resistência à insulina, alterações metabólicas podem ser observadas precocemente após o procedimento, em alguns casos antes que ocorra perda ponderal significativa. A melhora da sensibilidade à insulina, a recuperação parcial da função das células β, as modificações na secreção de hormônios gastrointestinais, as alterações no metabolismo dos ácidos biliares, o remodelamento da microbiota intestinal e a redução da gordura ectópica constituem alguns dos mecanismos envolvidos na recuperação da homeostase glicêmica. Dessa maneira, a cirurgia deve ser compreendida não apenas como uma estratégia para redução do peso corporal, mas como uma intervenção metabólica capaz de atuar sobre diferentes componentes da fisiopatologia do DM2 (PÉREZ-PEVIDA et al., 2019; SANDOVAL; PATTI, 2023).
Entre as técnicas cirúrgicas atualmente empregadas, a gastrectomia vertical (sleeve gastrectomy – SG) e a derivação gástrica em Y de Roux (Roux-en-Y gastric bypass – RYGB) destacam-se pela ampla utilização e pelos efeitos metabólicos demonstrados. Apesar de apresentarem diferenças importantes em sua anatomia e fisiologia, ambas promovem alterações capazes de melhorar o controle glicêmico e reduzir a necessidade de medicamentos antidiabéticos. A gastrectomia vertical caracteriza-se principalmente pela redução do volume gástrico e por alterações na sinalização enteroendócrina, enquanto o RYGB associa a criação de um pequeno reservatório gástrico à modificação do trânsito gastrointestinal, promovendo alterações mais amplas na exposição dos nutrientes ao intestino e na resposta hormonal pós-prandial.
A remissão do DM2 após esses procedimentos está relacionada à interação entre perda ponderal e mecanismos metabólicos independentes da redução do peso. A diminuição da resistência à insulina, a melhora da função das células β e as alterações nas concentrações de hormônios como GLP-1 e PYY contribuem para a recuperação do controle glicêmico. Além disso, modificações na circulação dos ácidos biliares, na microbiota intestinal e no metabolismo hepático e adiposo podem participar desse processo. A magnitude desses efeitos, entretanto, varia entre os indivíduos e está relacionada a fatores como duração do diabetes, controle glicêmico pré-operatório, reserva funcional das células β, uso de insulina, grau de obesidade e características metabólicas individuais.
Diante desse cenário, a comparação entre a gastrectomia vertical e o bypass gástrico torna-se relevante para compreender não apenas as diferenças na perda ponderal, mas também os distintos efeitos metabólicos, benefícios, limitações e potenciais complicações associados a cada técnica. A análise desses aspectos permite compreender os fatores que influenciam a remissão do DM2 e a necessidade de uma abordagem individualizada na escolha do procedimento cirúrgico.
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