Resumo
INTRODUÇÃO: Os transtornos mentais relacionados ao trabalho (TMRT) constituem agravos de origem multifatorial, associados a fatores psicossociais como sobrecarga, baixa autonomia, assédio e desequilíbrio esforço-recompensa, sendo importantes causas de incapacidade laboral. Embora os TMRT estejam entre os principais motivos de afastamento previdenciário no Brasil, há subnotificação expressiva, especialmente na região Nordeste, o que dificulta o planejamento de ações em saúde do trabalhador. OBJETIVO: Analisar o perfil epidemiológico dos casos de TMRT notificados no Nordeste do Brasil entre 2014 e 2024. METODOLOGIA: Estudo ecológico com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Foram incluídos todos os casos notificados de TMRT em indivíduos ≥18 anos, residentes na região Nordeste, no período de 2014–2024. As variáveis analisadas incluíram ano de notificação, sexo, faixa etária, escolaridade, ocupação, tempo na profissão, diagnóstico (CID-10), emissão de Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), evolução e condutas adotadas. RESULTADOS: Foram identificados 6.716 casos de TMRT. O maior número de registros ocorreu em 2023; o menor, em 2014. Houve predominância de mulheres (60,12%) e da faixa etária de 30–39 anos (37,7%). A maioria possuía ensino superior (30,51%) ou médio completo (27,44%). As ocupações mais acometidas foram profissionais das ciências e artes (20,2%), trabalhadores dos serviços e comércio (18,9%) e administrativos (16,8%); 59,72% estavam há anos na mesma função. Os diagnósticos mais frequentes foram transtornos neuróticos, relacionados ao estresse e somatoformes (F40–F48) (54,01%). Houve emissão de CAT em 26,27% dos casos e prevalência de incapacidade temporária (69,7%). Foram registrados cinco óbitos. CONCLUSÃO: Observou-se aumento dos TMRT ao longo da década, atingindo principalmente mulheres em idade produtiva, com maior escolaridade e inseridas em ocupações intelectuais e de serviços. Os achados reforçam o impacto das condições laborais adversas no adoecimento mental e evidenciam a necessidade de aprimorar estratégias de vigilância, prevenção, notificação e suporte psicossocial aos trabalhadores.
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