Síndrome de Allan-Herndon-Dudley: avanços atuais em fisiopatologia, diagnóstico e terapias emergentes

Autores

  • Querem Hapuque Zeferini Neves Universidade de Cuiabá
  • Pâmella Pablyne Gonçalves Nogueira Universidade de Cuiabá
  • Maria Fernanda Boehm Piovezan Universidade de Cuiabá
  • Valentine Ferlin
  • Tabatta Loana de Oliveira Ribeiro Hospital Geral e Maternidade de Cuiabá/HG
  • Gabriela Martins Reginato Universidade de Cuiabá
  • Alex Seabra Alves de Castro Universidade de Cuiabá
  • Gabriella Frattari de Araújo Rondon Borges Universidade de Cuiabá
  • Paulimar da Silva Pinto Júnior Universidade de Cuiabá

DOI:

https://doi.org/10.36557/2674-8169.2025v7n5p657-667

Palavras-chave:

Síndrome de Allan-Herndon-Dudley, Hormônio Tireoidiano, Transporte de Hormônios, Deficiência de MCT8, Diagnóstico Precoce, Terapias Emergentes, Trial

Resumo

Introdução: A Síndrome de Allan-Herndon-Dudley (SAHD) é uma encefalopatia genética rara e devastadora ligada ao cromossomo X, causada por mutações no gene SLC16A2, que codifica o transportador de monocarboxilato 8 (MCT8). A deficiência funcional do MCT8 impede o transporte adequado de triiodotironina (T3) para o sistema nervoso central, resultando em hipotireoidismo cerebral funcional e tireotoxicose periférica. Este desequilíbrio hormonal compromete o desenvolvimento neuropsicomotor, levando a atraso motor grave, distúrbios de movimento, convulsões, alterações metabólicas sistêmicas e comprometimento multissistêmico. Objetivo: Revisar criticamente os avanços recentes na compreensão da fisiopatologia molecular, manifestações clínicas, métodos diagnósticos e estratégias terapêuticas emergentes da SAHD, com ênfase na importância do diagnóstico precoce, da intervenção dirigida e na formulação de diretrizes para políticas públicas. Métodos: Foi realizada uma revisão abrangente da literatura publicada entre 2010 e 2024, com pesquisa sistemática nas bases de dados PubMed, UpToDate, GeneReviews, Orphanet, Observatório de Doenças Raras da Universidade de São Paulo (USP) e documentos oficiais da European Medicines Agency (EMA). Foram considerados elegíveis estudos clínicos observacionais, ensaios clínicos controlados, revisões sistemáticas, diretrizes internacionais e revisões narrativas de alta qualidade. Critérios de inclusão englobaram publicações que abordassem aspectos genéticos, fisiopatológicos, clínicos e terapêticos da SAHD. Foram excluídos relatos de caso isolados, séries clínicas com menos de três pacientes, artigos sem revisão por pares e publicações em formato de pré-print. Resultados: A deficiência de MCT8 compromete a mielinização, a diferenciação neuronal e o desenvolvimento de redes sinápticas no sistema nervoso central, enquanto simultaneamente gera tireotoxicose periférica. O perfil hormonal característico (T3 livre elevado, T4 livre reduzido e TSH normal ou discretamente elevado) associado à detecção de mutações patogênicas no SLC16A2 é essencial para o diagnóstico. O Triac (ácido triiodotiracético) emergiu como a primeira terapia aprovada para reduzir a tireotoxicose periférica em pacientes com SAHD. Novas abordagens terapêuticas, como o uso de sobetirome e estratégias de terapia gênica utilizando vetores AAV9, apresentam perspectivas promissoras. Persistem desafios como o atraso diagnóstico, a desigualdade no acesso a terapias e a ausência de programas sistematizados de triagem neonatal. Conclusão: A implementação de estratégias de triagem neonatal, a expansão do acesso a terapias emergentes e o fortalecimento do aconselhamento genético são fundamentais para modificar o prognóstico da SAHD. Investimentos contínuos em pesquisa translacional, redes multicêntricas de registro de pacientes e formulação de políticas públicas inclusivas são imperativos para garantir a democratização dos avanços científicos e a melhoria da qualidade de vida dos indivíduos afetados pela doença.

Introdução: A Síndrome de Allan-Herndon-Dudley (SAHD) é uma encefalopatia genética rara e devastadora ligada ao cromossomo X, causada por mutações no gene SLC16A2, que codifica o transportador de monocarboxilato 8 (MCT8). A deficiência funcional do MCT8 impede o transporte adequado de triiodotironina (T3) para o sistema nervoso central, resultando em hipotireoidismo cerebral funcional e tireotoxicose periférica. Este desequilíbrio hormonal compromete o desenvolvimento neuropsicomotor, levando a atraso motor grave, distúrbios de movimento, convulsões, alterações metabólicas sistêmicas e comprometimento multissistêmico. Objetivo: Revisar criticamente os avanços recentes na compreensão da fisiopatologia molecular, manifestações clínicas, métodos diagnósticos e estratégias terapêuticas emergentes da SAHD, com ênfase na importância do diagnóstico precoce, da intervenção dirigida e na formulação de diretrizes para políticas públicas. Métodos: Foi realizada uma revisão abrangente da literatura publicada entre 2010 e 2024, com pesquisa sistemática nas bases de dados PubMed, UpToDate, GeneReviews, Orphanet, Observatório de Doenças Raras da Universidade de São Paulo (USP) e documentos oficiais da European Medicines Agency (EMA). Foram considerados elegíveis estudos clínicos observacionais, ensaios clínicos controlados, revisões sistemáticas, diretrizes internacionais e revisões narrativas de alta qualidade. Critérios de inclusão englobaram publicações que abordassem aspectos genéticos, fisiopatológicos, clínicos e terapêticos da SAHD. Foram excluídos relatos de caso isolados, séries clínicas com menos de três pacientes, artigos sem revisão por pares e publicações em formato de pré-print. Resultados: A deficiência de MCT8 compromete a mielinização, a diferenciação neuronal e o desenvolvimento de redes sinápticas no sistema nervoso central, enquanto simultaneamente gera tireotoxicose periférica. O perfil hormonal característico (T3 livre elevado, T4 livre reduzido e TSH normal ou discretamente elevado) associado à detecção de mutações patogênicas no SLC16A2 é essencial para o diagnóstico. O Triac (ácido triiodotiracético) emergiu como a primeira terapia aprovada para reduzir a tireotoxicose periférica em pacientes com SAHD. Novas abordagens terapêuticas, como o uso de sobetirome e estratégias de terapia gênica utilizando vetores AAV9, apresentam perspectivas promissoras. Persistem desafios como o atraso diagnóstico, a desigualdade no acesso a terapias e a ausência de programas sistematizados de triagem neonatal. Conclusão: A implementação de estratégias de triagem neonatal, a expansão do acesso a terapias emergentes e o fortalecimento do aconselhamento genético são fundamentais para modificar o prognóstico da SAHD. Investimentos contínuos em pesquisa translacional, redes multicêntricas de registro de pacientes e formulação de políticas públicas inclusivas são imperativos para garantir a democratização dos avanços científicos e a melhoria da qualidade de vida dos indivíduos afetados pela doença.

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Publicado

2025-05-14

Como Citar

Neves, Q. H. Z., Nogueira, P. P. G., Piovezan, M. F. B., Ferlin, V., Ribeiro, T. L. de O., Reginato, G. M., Castro, A. S. A. de, Borges, G. F. de A. R., & Júnior, P. da S. P. (2025). Síndrome de Allan-Herndon-Dudley: avanços atuais em fisiopatologia, diagnóstico e terapias emergentes. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, 7(5), 657–667. https://doi.org/10.36557/2674-8169.2025v7n5p657-667